quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Questões que movem o trabalho

Relatos de um diágolo entre “eus” durante a performance

Na árvore do ”vale da samambaia”, havia um nicho no tronco, onde eu podia ficar sentado em lótus, confortavelmente. Quando subi, logo me coloquei nesta posição. Sem programação prévia comecei a fazer uma espécie de prática aleatória, tocando nas memórias de minha experiência com yoga, meditação e sokushin. Quando me dei conta do que estava fazendo, interrompi o processo me dizendo:
– Mas isso não é o seu trabalho. Você não veio aqui fazer meditação ou yoga.
– Então o que é o trabalho?
– É principalmente um exercício de presença, percepção e atenção. Quando ativo minha consciência na respiração deixando-a um pouco mais profunda, sinto meu corpo expandir-se. Localizo regiões de tensão muscular e tento dissolvê-las. São técnicas. Sinto o corpo mais leve e ao mesmo tempo mais cheio. Experiências que ativo a partir dos anos de estudo do corpo.
– Isso faz parte do trabalho?
– Acho que sim. Elas estão no meu corpo.
– Mas como superar a técnica? Como estar presente? Como manter-me atento? Sinto-me meio? Quando?
– Estar é um exercício. Escapo, volto, escapo...
Num momento, me percebi com um canal de criatividade aberto. Via trabalhos inteiros se organizando em pensamentos: ações, formas, cores, lugares. Quando percebi, estava projetando ações, ao mesmo tempo que ativava memórias da infância. Tentei interromper:
– Este não é seu trabalho, não é terapia, nem momento de criação. A performance exige estar aqui, agora.
– Mas interromper é uma repressão a um estado. Será que bloquear estes pensamentos faz parte do trabalho?
– Acho que não. Pensamentos são presença.
– Então o que é o trabalho?
– É contraposição ao hábito de movimento diário. É sensibilização. É devir árvore.
– E o que mais?
...

Sigo me perguntando.


Seja na cidade ou na mata, depois que tramo os fios, paro em algum nicho, me acomodo e me pergunto: o que estou fazendo em cima da árvore?
Começou a performance.

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